PESSOAS INSPIRADORAS - RAFAEL CAVALCANTI

Às vezes a vida nos surpreende com pessoas que são realmente especiais. Únicas em sua forma de ver o mundo e de se colocar perante ele. Rafa é uma dessas pessoas. Tem uma visão poética e profunda da vida, da literatura, da arte.  Me inspira todos os dias. Seu livro, "Poemas Presos", é uma joia, atemporal, que toca fundo em cada palavra, cada mergulho.



Gentilmente, cedeu-me a linda entrevista que segue, recheada de inspiração, verdade e amor. Tenho certeza de que inspirará vocês, eu com certeza me inspirei, ri e refleti, e passei a admirar ainda mais essa pessoa e escritor. 


1) Se você tivesse que escolher de 1 a 3 livros que mudaram a sua vida, aqueles que você não vive sem, que daria de presente sempre que pudesse, quais seriam?


Não sei o nome do livro mais importante que li. Quando criança, ganhei do meu pai um que perdi pouco antes de entrar na adolescência. Apesar de não lembrar o título, o que dificulta a minha busca por ele hoje em dia, lembro exatamente como era: pequeno, quadrado, ilustrado e, no meio, bem no meio havia um furo, onde era possível colocar o dedo indicador num pano e dar vida ao personagem principal, que era um rato. Esse buraco passava por todas as páginas, da contracapa à capa, onde cada uma delas mostrava uma parte de uma casa. Eu me divertia. Esse rato deve ter se cansado de mim, de tanto que fiz ele dançar. Noutro dia, pintei a boca dele de canetinha vermelha. Eu ria. Pensando bem, não devo ter perdido o livro. Ele deve ter fugido. Já entrei em vários sebos com pedaços de queijo nos bolsos, mas nunca o encontrei.

No momento, não tenho nenhum livro que possa individualizar e apresentar como uma história que não viveria sem. Todos foram e são importantes de alguma forma. Sobre dar de presente, acho que isso depende de algumas circunstâncias. Os livros infantis são responsáveis por construir, enquanto os livros adultos, independente do gênero, formato ou intenção, são feitos para desconstruir. Se pudesse presentear uma criança, daria o livro do rato. Para um adulto que não conheço, o chamaria antes para tomarmos algo e conversarmos, para eu entender. Para um adulto amigo, esse eu sei do que precisa ler. 

Pensando bem, tanto para as crianças quanto para os adultos, eu daria Toda Poesia, do Leminski.


2) Qual foi o ensinamento/crença/aprendizado que mais mudou sua vida nos últimos anos?


Faça.



3) Quando e como você soube o que queria fazer da vida? Quando descobriu seu propósito?


Sobre escrever, faço isso desde a época em que ainda era amigo do rato. Mas depois, adulto, não imaginei que a escrita seria a arte que eu usaria para desconstruir a mim e a outras pessoas. Não acho que seja um propósito, mas uma escolha. E é algo recente, de dois anos atrás, confesso.


4) Como é seu processo criativo (ou de trabalho)? Você é metódico com o que faz, ou deixa as coisas fluírem espontaneamente?

Os processos mudam de acordo com o que estou escrevendo. A execução ou não deles é algo que decido enquanto faço. Por vezes preciso ser obcecado, escrever 3, 4 horas seguidas na madrugada, mesmo que de maneira desordenada. Mas pode ser que na manhã seguinte os textos acompanhem a lentidão e organização de alguma música calma. Entre o método e o caos, caos. Mas acho o contraste algo necessário dentro do que escrevo. E o que eu escrevo passa pela forma pela qual escrevo. Uma vez, um professor me disse que, pior do que não ler um jornal, é ler um só. Ele tinha razão em relação a isso.

5) Quando você está exaurido/sem foco/sem inspiração, o que você faz?

Durmo.


6) Quais (ou quem) são suas maiores influências/inspirações?

Elas também mudam dependendo do que estou escrevendo. No geral, a música me influencia mais do que a literatura. Por esses meses estou entregue e preso à Matita Perê, de Tom Jobim (que por contradição à frase anterior, é uma canção feita para o Guimarães Rosa).

7) Qual foi o processo de criação de seu livro? O que você tira de positivo e de negativo dessa experiência?

Entendo que dentro desse mundo existe uma diversidade infinita de outros mundos. Vejo a minha função de escritor como a de um parteiro. As histórias já habitam esse lugar muito antes de nós, só precisamos auxiliá-las em seus nascimentos. Dependendo da forma que conduzirmos, podemos matá-las. Por sorte, cada história precisa de uma parição diferente. Poemas Presos, por exemplo, nasceu com 11 meses. Uma gestação complicada, mas no fim deu tudo certo. Foi o meu primeiro parto.

8) Quais seus próximos projetos?

Estou escrevendo o meu segundo livro, o Espelho D’Água, que é um dos personagens do primeiro. Paralelo a ele, tenho feito o terceiro. Poemas Presos está sendo traduzido para o francês, adaptado para o teatro, ganhando uma segunda edição e, recentemente, se transformou em um audiobook.

9) Se você tivesse que deixar uma mensagem para quem está lendo, qual seria?

Leiam autores homens com mais critérios. Leiam muito mais mulheres.


Obrigada Rafa, eu amei! Você é pura poesia!

Para mais do Rafa:



Até a próxima, e boas inpirações!

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