“ELA DISSE”: UM GRITO NECESSÁRIO SOBRE ABUSOS E UNIÃO FEMININA

dezembro 07, 2022

Convidada para assistir o filme “Ela Disse” nos cinemas, muni-me com apenas três informações: narra a história da investigação do jornal New York Times, que expôs as atrocidades cometidas por Harvey Weinstein, até então chefão de Hollywood, estrelado por Carey Mulligan e Zoe Kazan, duas atrizes que eu gosto muito, e escrito e roteirizado por duas mulheres.


Qual não foi minha surpresa ao deparar-me com um filme arrebatador e extremamente necessário. Vamos a ele.


Com o que acompanhei desse movimento, sabia que a reportagem seria publicada e que Harvey responderia por acusações criminais, mas não tinha ideia do tamanho da empreitada e da quantidade de coragem que foi necessária para que tudo viesse à tona.


Após algumas pesquisas, descobri que o filme é adaptado do livro que as duas jornalistas que conduziram a investigação escreveram, Jodi Kantor e Megan Twohey, cujo título é “Ela Disse”, o mesmo agora dado ao filme. Nele, elas expõem conversas, meandros e detalhes que não figuraram na reportagem, ou por ausência de espaço físico no jornal, ou porque na época muitas das vítimas tinham acordos de confidencialidade que as impediam de falar e serem citadas sob pena de serem punidas (com a falência da empresa em que trabalhavam, os acordos foram invalidados).


Harvey era dono da Miramax e da The Weinstein Company e dominava grande parcela do mercado cinematográfico. São de sua produtora filmes como “Pulp Fiction” e “Shakespeare Apaixonado”, que ainda hoje atraem público e enorme bilheteria, além de prêmios, como o Oscar.


Porém, como ficou claro no filme, a questão era muito mais grave. Suas condutas eram ignoradas e desconsideradas por membros da indústria, de agentes à advogados, colocando suas vítimas em posições de humilhação e medo constantes. Podemos ver no olho de cada atriz, incluindo da própria Ashley Judd que interpreta ela mesma, a dor e o sofrimento que os atos de Harvey lhes causaram, e as consequências em suas vidas até hoje.


Ashley inclusive, ainda muito nova, negou os avanços de Weinstein e com isso teve toda sua carreira prejudicada. Ela foi o primeiro nome na reportagem, o que deu força à outras mulheres a fazê-lo, e reprisa no filme alguns momentos que foram fundamentais em toda a investigação e na reportagem que se seguiu.


Os atos são dos mais grotescos e nojentos, envolvendo humilhação, ameaça, bullying, assédio moral, sexual e estupro. É de se louvar a coragem que Megan e Jodi tiveram em perseguir essas histórias, duas jornalistas investigativas com 20 anos de profissão.


Com a reportagem, Megan e Jodi ganharam o prêmio Pullitzer por serviços prestados à sociedade e abriram uma conversa que levou ao movimento do #metoo, em que diversas vítimas de abusos encontraram a coragem para falar do que lhes aconteceu. Após a reportagem, mais de 80 mulheres se apresentaram e relataram os abusos cometidos por Harvey num período de 30 anos.



A diretora do filme Maria Schrader (da minissérie Nada Ortodoxa) soube levar bem o filme com o próprio viés investigativo que propõe, mostrando também um pouco da vida das jornalistas e os sacrifícios pessoais que fizeram em prol da história. Da mesma forma, o roteiro de Rebecca Lenkiewicz (ganhadora do Oscar por Ida, igualmente potente), dão o tom de uma história que merecia as duas horas de tela.


Um filme forte e necessário sobre uma investigação que mudou os parâmetros de conversa sobre esse tema tão difícil. Difícil porque as vítimas sentem culpa, medo e vergonha, e segundo estudos levam de 7 a 10 anos para entenderem o que de fato lhes aconteceu e criarem coragem para reportar seus agressores. Difícil porque a indústria e outros homens – e algumas mulheres, colocam a situação em panos quentes e tentam desacreditar as vítimas, afinal, o agressor lhes gera benefícios, como dinheiro e fama.


A história me deixou perplexa e me levou ao documentário “Phoenix Rising” da HBO, em que a atriz Evan Rachel Wood conta, em duas partes, muitos documentos, vídeos e fotografias, os diversos abusos que sofreu, desde psicológicos a físicos, como violência, tortura e estupro, do famoso cantor Marilyn Manson. Um relato corajoso e dolorido, que mostra todo seu sofrimento e como se levantou e foi em busca de punição, de mudar a lei, cujo prazo de prescrição era baixíssimo, conseguindo após muita luta e união com outras vítimas.


Não pretendo julgar os agressores, a lei está aqui para isso, mas enaltecer o trabalho e a coragem dessas bravas mulheres em falar do que lhes aconteceu e de ir em busca da verdade, que apesar de dolorosa, liberta alguns passados e pode prevenir futuros ainda mais destrutivos.


No fim do dia, sempre existirão aqueles que vão dizer que é exagero, que ela quis, provocou, porque não saiu antes, porque não relatou. Sempre faltará empatia e compreensão de que existem situações que simplesmente nos jogam para além de quem somos e recuperar nossa identidade e dignidade torna-se quase impossível.


Por isso, filmes como “Ela Disse” são tão necessários. Uma voz que grita, pode chamar outras. O silêncio, só gera mais silêncio.

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